Matéria publicada na Revista Lida de Maio de 2006
Entenda as implicações do capital imobilizado em seus resultados financeiros
Pesquisando alguns dados no Agrianual* 2006, mais especificamente na pesquisa de preços de terras (em reais por hectare) realizada durante vários meses do ano, podem ser observadas algumas informações interessantes.
Primeiramente, numa análise de longo prazo, com dados de 1989-2005 para o estado de São Paulo, de 1998-2004 para os Estados Unidos, e mais especificamente para o Mato Grosso do Sul, de 2002-2005, podemos enxergar algumas relações e correlações interessantes. A correlação** entre os preços de terra de lavoura em São Paulo, e na região do Corn Belt americano é de 94,98%, o que demonstra que o comportamento de preço de ambas as regiões sofre influências parecidas. Ou seja, por se tratarem de commodities, a relação pode ser explicada pela variação do preço de venda dos commodities.
Mas o que o preço dos commodities tem a ver com o preço da terra? Em 1960, William Sharpe desenvolveu um modelo de precificação de ativos chamado CAPM***, que é um modelo de precificação de ativos (no caso deste texto, o preço da terra), que leva em consideração a geração de fluxo de caixa (quantos reais aquele ativo gera anualmente), e o nível de risco da operação (risco este sendo a variação do fluxo de caixa, numa análise ano a ano).
Na análise da correlação dos preços de terra agrícola de alta produtividade no Mato Grosso do Sul com o preço médio da soja, de 2002 a 2005, verifica-se um índice de 87,91%, que indica que a variação do preço da terra tem alta relação com a geração de capital em uma propriedade rural. Este índice confirma a utilidade da aplicação do CAPM, e a afirmação de que um ativo só tem valor se gerar renda.
Atualmente há vários termos novos e americanizados, mania de “gringo”, mas falaremos agora do conceito de ROA (Return Over Asset), ou Retorno sobre o Ativo Total. Para calcularmos o ROA de qualquer empresa, enxergando sua propriedade rural como uma organização que visa lucro, divide-se o Lucro Líquido (depois do Imposto de Renda) pelo Ativo Total, onde este último é a soma de todos os ativos da empresa (bens e direitos). E para um produtor rural, qual bem tem a maior participação no Ativo? Isso mesmo, é no Ativo Permanente que é contabilizado o valor do maior patrimônio do proprietário rural, que é a terra.
O objetivo aqui é mostrar a importância da relação risco-retorno para o produtor e implantar a cultura do pensamento empresarial, para a firma rural. Qual é o ROA de sua empresa? Alternativo às atividades mais tradicionais, pecuária extensiva, lavoura de soja, milho, entre outras. Existe a crença de que o arrendamento da terra é uma boa opção para geração de renda (fluxo de caixa positivo), mas se calcularmos uma remuneração líquida (livre de imposto de renda) de 8,5 sacas de soja por hectare, com a saca a um preço de R$ 21,00, são R$ 178,50/ha, que quando se calcula o ROA sobre uma terra de R$ 5.384,50, obtemos o percentual de 3,31% ao ano.
No mercado financeiro, sempre que é tomada uma decisão de investimento na implantação de um novo projeto, é calculado o custo de oportunidade, que é, basicamente, o quanto a empresa poderia remunerar aquele capital, sem risco. No Brasil, o índice mais utilizado para comparar a taxa de retorno é o CDI. Na última reunião do COPOM, os juros anuais foram reduzidos para 15,75% ao ano, e aqueles mesmos R$ 5.384,50 investidos em um CDB que pague, digamos, 90% do CDI, iria gerar uma renda de R$ 610,60 (já livre de 20% de Imposto de Renda na fonte), equivalente a 29 sacas. Esta renda, se comparada com a renda de uma lavoura de soja, é realmente um bom negócio, já que a título de exemplo, de acordo com os dados do Agrianual 2005, uma lavoura de soja que colheu 30 sacas por hectare em 2004 e com preço de venda da soja a R$ 44,10, gerou uma rentabilidade bruta média de R$ 125,00 por hectare, que descontado 15% de Imposto de Renda, é R$ 106,25, calculado sobre somente nosso ativo, a terra de R$ 5.384,50, obtemos o percentual de 1,97% ao ano.
O que todos estes números querem dizer? Comparando com nossa conta de num cenário extremamente positivo obtermos um ROA de 3% ao ano, será que vale a pena manter toda a estrutura de uma lavoura ou pecuária (seus tratores e benfeitorias entram na conta do Ativo Total, piorando sua rentabilidade), com o risco também do clima não ser propenso, ou do câmbio cair, ou do arrendatário não pagar, entre outros problemas já “velhos conhecidos”, para remunerar o capital abaixo do nosso custo de oportunidade? Sua empresa (e o exemplo vale para as rurais ou as urbanas) paga mais de 15,75% ao ano sobre seu Ativo Total?
Olhando sob outra perspectiva, agora para a parte do risco, e considerando que o ativo (terra) é valorizado de acordo com a capacidade deste de gerar fluxo de caixa, qualquer produtor percebe a diferença no lucro líquido quando vende a soja a R$ 44,10 a saca ou quando vende, desolado por não ter fechado um contrato futuro a R$ 38,25 quando teve chance, a míseros R$ 21,00 por saca de 60 kg.
A influência do risco pode ser observada quando analisamos a diferença na variabilidade dos preços de terras de pastagem formada, que subiram cerca de 99% de 2002 a maio de 2004 e caiu 13,53% de maio de 2004 a agosto de 2005, e a variação das terras agrícolas de alta produtividade, no mesmo períodos foi de uma alta de 137% e posterior queda de 13,53%.
Estes dados demonstram uma relação que é real também no mercado financeiro, de que o maior retorno é oriundo de uma maior exposição ao risco, refletindo isso no nível de risco das duas atividades.
Esta noção dos conceitos básicos de Contabilidade e Administração Financeira não deve ser utilizada apenas para, ao final da safra, seu balança ficar correto, mas sim servir como critério de tomada de decisão dentro de sua empresa. Analisar a relação retorno-risco também deve servir como base para um planejamento financeiro, para que o produtor rural não caia na armadilha de buscar pagar o mínimo de imposto possível, e sim gerar um fluxo de caixa não só positivo, mas acima de seu custo de oportunidade, não esquecendo de se considerar os riscos envolvidos.
No próximo artigo discutiremos o outro lado da moeda, que mostra a ótica que o proprietário rural deve ter, compreendendo que a atividade da pecuária, lavoura ou arrendamento, é sua atividade secundária (em termos financeiros), já que a principal fonte de remuneração é (por enquanto) a valorização da terra.
* O Agrianual é o anuário agrícola da FNP. Mais informações em http://www.fnp.com.br.
** A correlação é uma medida estatística que indica a força e a relação entre duas variáveis. 100% indica uma correlação perfeita, e –100% indica uma correlação inversa.
*** CAPM: Capital Asset Pricing Model, ou Modelo de Precificação de Ativos. É um modelo de Finanças Corporativas utilizado para valorar um ativo, de acordo com a capacidade deste de gerar fluxo de caixa positivo, associando este retorno a um nível de risco.
"Fazendeiro não é produtor rural, é dono de terra!"
Este artigo é continuação do texto “A Rentabilidade na Atividade Rural”, publicado na Lida Agro Revista, na edição de maio de 2006, onde foram apresentados dados sobre a rentabilidade, ou a taxa de retorno na atividade rural. Na análise houve uma série de cálculos, e ocorreu inclusive um erro de digitação, e transcrevo abaixo o segundo parágrafo da quinta coluna, ressaltando o erro:
A influência do risco pode ser observada quando analisamos a diferença na variabilidade dos preços de terras de pastagem formada – que subiram cerca de 99% entre 2002 e maio de 2004, e caíram 13,53% de maio de 2004 a agosto de 2005 – e a variação de terras agrícolas de alta produtividade, que, no mesmo período tiveram uma alta de 137% e posterior queda de 39,78%.
É claro que eu poderia ter feito apenas uma errata, mas meu propósito nesta continuação é relembrar este parágrafo, atribuindo a questão do risco à variação do preço. Se você observar, quando tivemos uma alta de preços nos produtos agrícolas e pecuários, a terra de lavoura subiu um terço a mais, e no momento onde os produtos tiveram uma baixa, caiu três vezes mais. Mas além do aspecto risco estar diretamente ligada à variabilidade dos preços dos commodities produzidos nestas terras, também quero citar a questão da valorização ou desvalorização da terra.
A crença é, assim como nos bons terrenos urbanos, de que os preços das terras sempre sobem. Os argumentos são vários, assim como em qualquer boletim de preço de soja, seja do MNP (Movimento Nacional dos Produtores), do CNA (Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária), ou qualquer outra das grandes agências com analistas de mercado. Onde quero chegar, e isto vem sendo apresentado nos últimos três artigos nesta revista, é que alguns paradigmas mudaram. Da mesma maneira que ouvimos falar das empresas de alta tecnologia, as multinacionais, ou aquele “papo” de era do conhecimento, essa realidade atinge também as empresas (sim, empresas!) rurais. Se estas não se adaptarem à nova conjuntura, no ano que vem teremos novo protesto em Brasília, clamando por rolagem de dívida e políticas monetárias ortodoxas, para apreciação do câmbio.
A proposta aqui é apresentar uma visão diferente, onde se parte do pressuposto de: Se a remuneração sobre o patrimônio de minha atividade, seja ela pecuária, lavoura ou arrendamento é próxima de 5% ao ano, em condições extremamente favoráveis, porque não fechar toda a operação, vender a terra, aplicar no banco, e receber 15,75% ao ano, sem risco? A argumentação entra não em discutir se você remunera 2, 3 ou 5% sobre o patrimônio, mas enxergar qual é seu negócio mais rentável.
A defesa para esta argumentação sempre foi a valorização da terra, que pode fazer toda a diferença no resultado final. Busquei alguns dados no Agrianual (com 20 anos de histórico 1985 a 2005) para justificar este argumento, e levantei algumas informações interessantes. Se analisarmos os preços de terras de lavoura nestes 20 anos, tivemos momentos de alta em baixa, mas ao final um resultado de variação positiva, de 3,18% ao ano (em dólar), e de 1994 a 2005 (11 anos) 12,06% ao ano, em reais. Se somarmos os 5% aos 12,06% ao ano, temos 17,06%, acima do nosso custo de oportunidade, os 15,75% que, lembrando, são obtidos sem risco. Portanto, mais retorno advém de maior risco, é importante melhorar a rentabilidade rural, pois a longo prazo esta taxa tende a diminuir, como podemos observar quando analisamos os 20 anos de histórico. Mas sem dúvida, quando ¾ da rentabilidade da empresa vem de uma só atividade, chamamos isto do negócio da empresa.
Algumas pessoas, quando vão fazer suas análises de valorização da terra (as que fazem, ao menos), utilizam como justificativa períodos como o de 1999 a 2004, quando houve uma alta de 600% nos preços das terras de lavoura, ou 47,58% ao ano. Com certeza períodos especulativos como estes geram bons resultados de valorização patrimonial, assim como o IBOVESPA teve uma alta de 97% em 2003, mas para a análise mais realista, devemos encarar o longo prazo.
Mais uma vez, estes números são pilares para sustentar a argumentação de que algumas máximas ainda citadas devem passar pelo crivo do senso crítico e análise fria, e não apenas tomadas como verdadeiras. O psicólogo Daniel Kahneman ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2002, pois provou que as pessoas não são nada racionais quando o assunto é dinheiro.
O cenário extremamente negativo do negócio rural no país ainda não tem hora para voltar a antigos patamares, mas qualquer atividade econômica deve ser analisada caso a caso, e números e dados não faltam para balizar as ações. E sem dúvida, a profissionalização da gestão rural é eminente, incluindo a compreensão de novas realidades, sendo algumas delas:
*A dinâmica da formação de preço de commodities
*A necessidade da utilização de mecanismos de travas de preço
*A compreensão do Retorno sobre o Patrimônio (ROA)
Não serei tão duro e enfático como o jornalista José Roberto Caetano, em seu artigo “O ponto vulnerável da agricultura”, publicado na Revista EXAME, nº 866, de 26/4/2006, que usou palavras como fiasco ou falta de independência, referindo-se a gestão financeira da grande maioria dos produtores rurais no país, mas acredito na importância de deixar um comichão atrás da orelha, colocando a questão em perspectiva.
Autor: Kenneth Corrêa
Fonte: http://www.gestaoativa.com.br/invest/4.1.5.shtml